Toxophilos - Caça com arco


Toxophilos - Caça com arco

by Merida Fergus, in Arqueria


Posted on March 20, 2020 at 07:16 PM

Com certeza a caça faz parte das atividades do homem desde os primórdios de nossa espécie. Inicialmente ela era praticada com pedras, paus, lanças e do seu sucesso dependia a vida de nossos antepassados. Até que algum gênio resolveu prender uma corda num pedaço de pau e usar a elasticidade da madeira para lançar uma pequena lança. Estava inventada uma das principais ferramentas do homem que esteve presente em quase todas as culturas como instrumento de caça e, inevitavelmente, de guerra: O arco.

A invenção do arco foi, junto do fogo, uma das principais descobertas do homem. Sem a ajuda desta arma, muitos não teriam sobrevivido.

pontas de pedra
Réplicas de pontas de flecha primitivas

Agora o homem poderia atingir com precisão suas presas e a uma distância segura. E talvez mais importante do que a segurança era a possibilidade de atacar a caça a distância, o que aumentou o número de caçadas bem sucedidas. Assim o homem teve o arco ao seu lado durante milênios. E durante todo este tempo ele foi, triunfante, a arma mais eficiente que um homem poderia manejar sozinho.

homens caçando

Até que a pólvora foi inventada pelos chineses e o mosquetão foi criado pelos europeus. Então, a facilidade de manuseio transformou as armas de fogo na pá que enterraria para sempre os arcos na história do homem.

Salvo algumas sociedades que não tiveram acesso às armas de fogo e mantiveram seu modo de vida primitivo, o arco foi realmente quase que extinto. E permaneceu durante décadas como mais um artefato exclusivo dos povos do passado, "menos desenvolvidos".

Mas algo incomodava alguns indivíduos quando estes ouviam velhas histórias que contavam sobre grupos que usavam uma arma silenciosa, feita de materiais retirados diretamente da natureza e que qualquer um poderia aprender a fazer. E um detalhe: mais eficiente do que o mosquetão se manejado por mãos habilidosas*.

Foram estes indivíduos que buscaram obter novamente o conhecimento sobre a arte da arquearia.

Hoje temos facilidades antes inexistentes nas sociedades. Nossa organização torna, muitas vezes, a maioria das armas em uma ferramenta dispensável. E a caça em uma atividade desnecessária. Mas não é porque não precisamos caçar, e mais, caçar com arco, que esta arte milenar deve ser esquecida. Acabar com a caça é acabar com parte da cultura humana.

*Um bom arqueiro pode atirar muito mais flechas do que um atirador pode efetuar disparos com um mosquetão em um mesmo intervalo de tempo.

Preservação

Caçar não é depredar o meio ambiente. Caça não é a exterminação da fauna. O caçador não é inimigo da natureza. O caçador não é inimigo do ambientalista (apesar de o inverso muitas vezes ser afirmativo, por ignorância).

Caçadores que contribuem para a destruição da fauna e do meio ambiente como um todo existem. Mas estes devem ser punidos e conscientizados. As causas da prática destes caçadores também devem ser combatidas. Estas causas são geralmente a deficiência nos valores de preservação e, muito presente no contexto nacional, problemas socioeconômicos.

Preservação do meio ambiente não é ausentar o homem do contexto natural. Preservação do meio ambiente não é ausentar o homem da cadeia alimentar e do equilíbrio ecológico. O que deve ser feito, devido ao grande aumento da população humana, é o controle da caça baseado no monitoramento das populações de animais.

A caça deve ser uma aliada na preservação ambiental. Tanto como geradora de divisas, quanto como instrumento para o controle de populações de animais.

Ditos alguns fatos, falemos então do caçador ecologicamente correto.O caçador deve basear-se em pesquisas científicas para definir alguns aspectos de sua caçada. A espécie, a época propícia, a região adequada são alguns fatores que devem determinar as decisões de um caçador. Somente se a análise de todos estes fatores resultar na conclusão de que abater um exemplar dessa espécie em determinada época em certo local não irá contribuir para que a população deste animal entre em risco de extinção, é que a caça pode ser praticada.

A caça pode ser uma importante ferramenta para a preservação do meio ambiente. Através da cobrança de licenças de caça e de impostos sobre produtos destinados a esta prática, o governo poderia ter uma importante fonte de renda para engordar as verbas destinadas aos órgãos que se ocupam da preservação e pesquisa. Assim poderia-se também intensificar a fiscalização evitando a caça clandestina, o desmatamento ilegal e outras práticas depredadoras, essas sim, causadoras de grandes prejuízos ambientais. Nos EUA (desculpe, mas torna-se inevitável citá-los em se tratando do tema em questão...) há estados em que 100 % das verbas destinadas a preservação do meio ambiente são oriundas dos caçadores. Em nenhum dos estados este valor é inferior a 90 %. Este dinheiro é arrecadado através das licenças de caça e de uma taxa de 11 % sobre produtos destinados a este fim.

Em muitos outros países também são os caçadores os responsáveis pela maior parte da preservação ambiental. Portanto, um mundo sem caçadores correria um risco ainda maior de perder sua riqueza e diversidade naturais em um tempo muito menor.

O caçador consciente é um dos maiores interessados na preservação ambiental.

E como há séculos a mão do homem vem causando grandes desequilíbrios, as vezes a caça torna-se também uma importante ajudadora na manutenção do equilíbrio ecológico através do controle de certas populações quando necessário.

A caça no Brasil

Na maioria de nossos países vizinhos a caça é regulamentada, existindo inclusive leis específicas para a caça com arco em alguns deles. Na Argentina, por exemplo, a potência mínima exigida  para um arco a ser utilizado para caça é 50#. Nossos vizinhos são interessantes locais para se caçar em se tendo oportunidade. Mas nada como estar em casa... 

Infelizmente em nosso país existe um enorme preconceito em relação a certas atividades. Não são poucas as pessoas que taxam qualquer caçador de assassino, sanguinário, e coisas do tipo. É um comportamento semelhante ao de pessoas que vêm uma árvore sendo podada e dizem: "Coitadinha!", quando a poda não faz mal algum à planta, mas geralmente um grande bem. É quando a ignorância aliada à uma "bondade"(gostaria de encontrar uma palavra mais adequada...) que está ligada à pena, à dó, levam a certos comentários e posicionamento equivocados.

A caça no Brasil, como em qualquer outra parte do mundo, é uma atividade tradicional, provavelmente seus avós ou pais caçavam. Por certo período a caça esteve regulamentada em todo o território nacional, com temporadas e tudo mais. Mas a pressão de ambientalistas (e pressão esta até justificável considerando a ineficiência da fiscalização que não controlava a caça clandestina) levou à proibição total (com algumas exceções) da caça no território nacional.

No entanto, a nível federal, a caça não é proibida. Fica sob a responsabilidade dos estados as decisões a respeito. 

Nos últimos anos o Rio Grande do Sul vem conseguindo grandes vitórias, sendo que hoje a caça é regulamentada no estado gaúcho. Atualmente o caçador gaúcho tem o privilégio de caçar patos, marrecos, javalis e outros, tudo dentro da lei em suas respectivas temporadas. Isto deve-se à grande força e organização dos caçadores de lá, o que deve ser tomado como exemplo por caçadores dos outros lugares do país. Em algumas reservas da Amazônia a caça de búfalos e jacarés também foi regulamentada. O caçador brasileiro não é, portanto, um fora da lei.

Procure sempre estar dentro da lei. Apesar dos pesares leis existem para serem cumpridas. Não se acomode com a injustiça nem fique satisfeito pela ineficiência de nossa fiscalização, maslute por seus direitos!

A caça com arco

Após breve comentário sobre a caça em geral, falemos sobre a caça com arco especificamente.

O equipamento a ser usado deve ser aquele com o qual o atirador está acostumado e consegue, sempre, tiros precisos em distâncias variadas. Um arqueiro deve treinar muito antes de aventurar-se em uma caçada, a fim de ser bem sucedido. A potência necessária de um arco irá variar de acordo com o animal. Por exemplo, uma lebre exigirá menos potência do que um búfalo. Para animais de médio porte o recomendável é uma potência superior a 45#. A flecha pode ser de qualquer tipo, sendo o seu peso um  fator  relevante. Flechas mais leves adquirem mais velocidade, porém flechas mais pesadas, apesar de mais lentas, possuem penetração superior, portanto preferíveis. Mas a peça de maior importância será, sem dúvida, a ponta da flecha.

A caça de animais pequenos, como aves de pequeno porte e lebres, não exigem tanto da ponta da flecha. No entanto existem, até para esses animais, pontas específicas. Estas trabalharão de modo a reduzir a penetração e/ou aumentar a área de atuação da flecha.

ponta de flecha para aves ponta para pequenos animais 
 Ponta usada para aves  Ponta usada para pequenos animais

A caça de animais de médio e grande porte exigem, e muito, de uma ponta específica. Dois fatores são fundamentais em uma ponta de flecha deste tipo: poder de penetração e poder de dano.  Estas duas características geralmente são antagônicas. Por exemplo, uma ponta mais larga e/ou com maior número de lâminas causa maior dano porém tem menor poder de penetração. Estes fatores devem ser avaliados levando em conta também a potência do arco utilizado e o animal que se pretende abater. Quanto mais fundo a flecha entrar e quanto maior a hemorragia que esta causar, mais rápida e menos sofrida será a morte da caça. Além disso devemos ressaltar que qualquer que for as dimensões e o tipo da ponta esta deve ser feita de um metal suficientemente duro e estar sempre muito bem afiada para que nem mesmo ossos largos sejam um obstáculo.

ponta caça 2 laminas ponta caça com 3 laminas ponta de caça com 4 lâminas
Pontas de caça para médios e grandes animais

As técnicas de caça usando um arco e flechas são, em geral, semelhantes às técnicas de caça usando armas de fogo. Existindo, assim, as mesmas técnicas usadas na caça com arma de fogo, com algumas diferenças. A principal diferença está na distância na qual o caçador pode efetuar um disparo seguro (com 100% de chance do caçador atingir os pontos vitais). Na caça com arco esta é geralmente inferior.

A distância máxima que um disparo pode ser dado variará com o nível do arqueiro. Não efetue um disparo a uma distância maior do que  aquela em que, durante os treinos, era possível acertar uma área igual a área do ponto vital do animal em questão. Ética e responsabilidade é tudo. Não agindo corretamente pode-se acabar com um animal ferido vagando pela mata aguardando o seu lento fim ou uma recuperação lamentável. Geralmente essa distância não é superior a 20 metros. Mas há também aqueles que, com segurança, podem atirar em alvos a até 40 metros em situação de caça. Conheça seus limites e respeite-os.

Para atingir essas distâncias, muito é exigido das habilidades do caçador. Fatores usualmente dispensáveis na caça com arma de fogo tornam-se essenciais agora. A camuflagem é um desses fatores. Apesar de antes de ter contato visual é muito mais fácil o animal te perceber pelo olfato ou ouvir um ruído, uma vestimenta camuflada evita que o animal tenha facilidade em te ver.

O odor é considerado por muitos o mais importante. Alguns usam substâncias de cheiro forte para cobrir o cheiro humano e em alguns casos até atrair a caça, como fumaça, urina de animais e outros. A técnica mais antiga e de eficiência indiscutivelmente maior é andar sempre com o vento batendo no rosto e, se parado, com o vento vindo do local de onde se espera que caça se aproxime. Assim, qualquer que seja o seu cheiro, bom ou ruim, a caça estará impossibilitada de percebê-lo.

É muito importante estar atento para que não seja feito nenhum ruído ou movimento brusco. 

Com o arco deve-se mirar para que se atinja a região dos pulmões e coração lateralmente. O ponto exato varia de acordo com a espécie, mas geralmente se localiza imediatamente atrás da paleta (ombro) e em altura mediana. Nunca atire em um animal que está de frente ou de costas para você. Nunca tente uma flechada na cabeça. Em alguns casos uma flechada na espinha pode ser uma boa opção, o animal paralisará imediatamente e com uma boa ponta ainda pode-se atingir órgãos vitais, mas isto só deve ser buscado quando se está acima da caça, com jacarés isto é muito comum. Estude a anatomia do animal que pretendes caçar, mire exatamente no ponto vital e mais importante: NÃO ERRE!

Texto extraído de: http://www.toxophilos.com.br/,  atualmente fora do ar!!

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